Após anunciar papel ‘gerencial’, intervenção muda estratégia e assume patrulhamento nas ruas

Depois dos últimos episódios de violência no Rio, que registrou a 9ª morte na Rocinha desde o fim de semana e viu ontem um comboio de bandidos circular com um arsenal pesado à luz do dia numa via de grande fluxo da região da Praça Seca, o comando da intervenção na Segurança Pública decidiu inovar em sua estratégia. A partir de hoje, as Forças Armadas participarão do policiamento de rua, ocupando pontos de grande movimentação de pessoas e veículos nas zonas Norte e Sul e no Centro.

Para especialistas, a mudança visa a aumentar a visibilidade da ação dos militares. Um mês depois de o general Walter Braga Netto anunciar que a intervenção federal teria “um papel gerencial” na segurança pública do estado, surge uma mudança de estratégia, adotada após uma explosão de violência. O fim de semana teve oito mortes na Rocinha (além de uma nona ontem, durante um novo confronto) e uma chacina de cinco jovens em Maricá; já a segunda-feira começou com um intenso confronto entre traficantes e milicianos e terminou com um tiroteio dentro do Botafogo Praia Shopping.

Agora, as Forças Armadas vão para as ruas: a partir de hoje, militares ficarão de prontidão em pontos do Centro e das zonas Sul e Norte. Para especialistas, trata-se de uma alteração de rumo, cujo objetivo é dar visibilidade às tropas, proporcionando sensação de segurança à população.

Em nota, o comando da intervenção informou ontem que o patrulhamento será reforçado em “áreas de grande circulação de pessoas e veículos”. Entre os lugares selecionados estão o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, no Centro; a Praia de Copacabana, na altura do Copacabana Palace, e a orla de Botafogo, perto do shopping. A medida foi tomada depois de patrulhas motorizadas terem identificado locais adequados para a permanência das guarnições “por períodos de tempo definidos”. No entanto, não foi especificada a duração das ações. Os militares terão o apoio da Força Nacional, da PM e da Guarda Municipal. Ainda de acordo com o comunicado da intervenção, tropas continuarão atuando na Vila Kennedy, na Zona Oeste. Na semana passada, o Comando Militar do Leste (CML) havia informado que soldados deixariam a comunidade em “duas ou três semanas”.

O cientista político Guaracy Mingarde, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que a nova estratégia não deixa de ser uma forma de marketing para manter o apoio da população à intervenção, que, segundo ele, “não foi abalado, apesar dos resultados inexpressivos”:

— Se o morador do Rio ficar mais dois meses sem ver nada de concreto, passará a não ser mais favorável (à intervenção). Vai ter mais gente cuidando da segurança nas ruas. Para o policiamento, a experiência é muito importante. Mas, se os militares tomarem atitudes erradas, vão ter a população tomando posição contra eles.

 

Para José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, a sensação de segurança vai aumentar nos bairros que receberão patrulhamento do Exército, porém por um curto período. Ele lamenta que áreas mais castigadas pela violência, como grande parte da Zona Oeste e a Baixada Fluminense, tenham ficado de fora da nova estratégia:

— Num primeiro momento, a sensação de segurança pode mesmo aumentar. Mas, se os índices de criminalidade não caírem, só vai durar alguns dias.

 

José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública , acredita que as Forças Armadas vão para as ruas em busca de resultados, mas destaca que reestruturar a PM deve ser a prioridade da intervenção:

— Eu começaria esse processo convocando policiais cedidos a órgãos do Legislativo e do Executivo, e colocaria militares para fazer o trabalho administrativo dos batalhões.

 

Fonte: O Globo