Às vésperas do verão, governos precisam agir para evitar epidemias

O enredo é sempre o mesmo. O número de casos da doença cai — não exatamente por ação ou empenho dos gestores de saúde, mas, em geral, por fatores ligados à sazonalidade —, governos e população se desmobilizam, achando que o risco está afastado, e as epidemias voltam. Tem sido este o roteiro nos surtos de dengue, zika, chicungunha e febre amarela. Ao menos desta vez, o governo federal decidiu alertar para o perigo iminente. Às vésperas da chegada do verão, estação em que a transmissão se intensifica, o Ministério da Saúde chamou a atenção para a necessidade de estados e municípios se prepararem para o risco de epidemias. Os dados divulgados pelo ministério mostram o tamanho do problema. No Estado do Rio, por exemplo, apenas este ano o número de casos de chicungunha disparou 651%, passando de 4.293 para 32.245, entre janeiro e outubro, comparado com o mesmo período do ano passado. Já as notificações de dengue subiram 41%, de 9.725 para 13.765. Com o calor e o aumento das chuvas, típicos do verão, a tendência é que esses números avancem. A situação da febre amarela, doença para a qual existe vacina, também não permite descuido. Apesar de sucessivas campanhas, os índices de vacinação ainda estão muito abaixo dos 95% considerados seguros pelos especialistas. No Estado do Rio, algumas cidades têm índices de cobertura pífios, como é o caso de São João de Meriti (6,8%); Barra do Piraí (10,7%); Queimados (12,7%) e Duque de Caxias (14,5%). O estado como um todo vacinou apenas 38,3% do público-alvo, ou seja nem a metade do recomendado. Mesmo a capital fluminense, segundo município mais populoso do país, ainda mantém 3,9 milhões de pessoas desprotegidas. A título de comparação, Minas Gerais, embora ainda abaixo da meta, vacinou 90,75%. E a capital, Belo Horizonte, imunizou 99,3%. É importante ressaltar que a febre amarela tem registrado altas taxas de letalidade. No verão passado, de cada dez pessoas que contraíram a doença, quatro morreram. Portanto, é fundamental vacinara população. Não se pode atribuir os baixos índices de cobertura à falta de vacinas. O Ministério da Saúde alega que, desde o início do ano, enviou aos estados 30 milhões de doses contra a doença. Não se tem notícia de que estejam em falta. Inútil também culpara população. Se as pessoas não vão às unidades de saúde, deve-se ir até elas, de porta em porta, como alguns municípios estão fazendo com bons resultados. E se o problema são as fake news, que se promovam campanhas para combatê-las. O único antídoto para evitar mais mortes é agir.

Fonte: O Globo